sexta-feira

Casados com Paris, de Paula McLAin (Ed. Nova Fronteira)



Andei um tempo sem palavras para escrever sobre Casados com Paris. Tenho tanto fascínio pela Paris dos anos 20 depois que li Têt-a-Têt. Ultimamente, filme do Woody Allen, O que falta ao tempo, em seguida o incrível retrato dessa geração. Preciso ter novamente 20 anos, arrumar a mochila e ir estudar na Sorbonne!
Nesse livrinho danado de bom vivemos um pouco da vida da geração perdida. Vamos vendo se criar a relação de Ernest Hemingway com sua primeira mulher, a mais importante mulher da sua vida. Quem ele realmente amou e precisou ter do lado para conseguir existir como escritor, conseguir ser quem sonhava ser. Alí a gente vê o pobre homem buscando na mulher, a mãe para conseguir se erguer. Sabe aquele clichê de todos os clichês, de que por trás de um grande homem existe uma grande mulher? Também cabe.
Hadley deixou o escritor vir à tona, criou o homem no sentido maternal mesmo. Amou, cedeu, viveu em função do amor.  Mil Simones de Beauvoir não dão uma Hadley Richardson no que diz respeito à sucumbir ao talento e presença avassaladora de um homem com uma personalidade como a de Hemingway.
A geração dos anos 20, que se formou em volta daquela cidade boêmia, a famosa geração dos americanos perdidos em Paris no auge da efervescente literatura é sedutora. Conheci melhor o casal Zelda e Scott Fitzgerald aqui do que em sou próprio livro Alabama Song. Um casal completamente excêntrico, diga-se de passagem. Era uma turma de amigos interessantíssima, com papos intelectualmente excitantes. Enorme quantidade de bebida, cigarro, absinto, ópio, tudo o que o início de um século, vindo de uma guerra podia proporcionar. Cabeças pensantes querendo basicamente viver e se divertir.
Mas como tudo nessa vida é uma faca de dois gumes, quem tivesse um pouco mais de consciência moral, ou caretice como podia ser visto naquela época, sofria desesperadamente com as consequências daquele estilo de vida.
Hadley não pôde. Deu toda a estrutura emocional que seu marido precisava enquanto escrevia, mas não conseguiu acompanhar a avalanche que veio junto com todo aquele talento. Hemingway foi brilhante, apesar de difícil. Sim, um homem admirável, sedutor, e indomável! Em algum momento da vida, Ezra Pound pede, em outras palavras, para Hadley nunca tentar aprisionar o cavalo selvagem que era seu marido. Ela diz que gosta dele exatamente como ele é. Só depois de muitos anos ela entende o que o amigo estava querendo lhe dizer.
Não conhecia a história do escritor, foi difícil terminar o livro. Me vi chorando na madrugada silenciosa, completamente envolvida e chocada com as últimas páginas. Não que elas carregassem acontecimentos mirabolantes, mas pela sinceridade dilaceradora com que a autora pontua o destino dos seus personagens.
Mas como a própria Hadley diz, eles tiveram o melhor um do outro. Ela obteve o melhor daquele homem. O que viveram juntos com certeza transformou aquela mulher para o resto da vida.
O livro foi escrito depois de uma longa pesquisa de Paula McLain sobre a vida daquelas pessoas, bem como as cartas escritas pelo casal na época. Ela retrata o cenário da cidade luz com precisão, descrevendo a boemia parisiense, quem podia ser visto com frequência pelo Dôme ou pelo Rotonde, descreve o próprio Ernest se rendendo àqueles cafés tão popularesComo se vê, mais uma apaixonada pela geração perdida daquela Paris dos loucos anos 20.


Trechos da obra...

"Eu teria saído feliz da minha pele naquela noite e entrado na dele, porque eu acreditava que era aquele o significado do amor. Não tínhamos acabado de desfalecer um dentro do outro, até que não houvesse diferença entre nós?
A lição mais difícil do meu casamento foi descobrir a falha desse pensamento. Eu não conseguia alcançar todas as partes de Ernest, e ele não queria que eu o fizesse. Ele precisava de mim para se sentir seguro e apoiado, sim, da mesma maneira que eu precisava dele. Mas ele também gostava de poder desaparecer dentro do seu trabalho, longe de mim. E voltar quando quisesse." (pag 69)

"Ele tinha razão. Inúmeras vezes eu jurara nunca me atravessar diante do seu trabalho, sobretudo quando estávamos apenas começando, quando eu via a carreira dele como minha e acreditava ser meu papel ou até meu destino ajudá-lo a abrir caminho. Mas cada vez mais eu compreendia que não sabia o que realmente significavam aquelas promessas. Parte de mim o queria tão infeliz quanto eu. Talvez assim ele cedesse e ficasse." (pag 125)

"- Um conto - disse ele - para cada coisa que sei. Que sei de verdade, em meus ossos e minhas entranhas.
Quando ele falou isso, perguntei-me o que eu sabia de verdade, do jeito que ele queria dizer, e só consegui responder com Ernest e Bumby, nossa vida juntos. Era uma idéia vergonhosamente ultrapassada, eu sabia, e, se a tivesse confessado a qualquer mulher em qualquer café de Montparnasse, teria sido motivo de riso pelas ruas. Esperava-se que eu tivesse minhas própria idéias e ambições e que fosse inacreditavelmente sedenta de experiências e novidades de todo tipo. Mas eu não estava sedenta, estava satisfeita." (pag 188)

2 comentários:

Gio disse...

AMEI...tudo. O livro, o que vc escreveu e relatou! beijooo

Caderninho Roxo disse...

muito bom este livro!
toda vez que me apaixono por um livro dou um "google"para ver o q escreveram por aí sobre ele e acabei conhecendo o blog. adorei.
parabéns! :-)

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